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20
Set
2012
As marcas mais lembradas pela Classe C
As marcas mais lembradas pela Classe C
 
Pesquisa divulgada pelo instituto Data Popular aponta que 46% dos consumidores da nova classe C não têm uma "marca do coração" no país. Para o estudo, foram entrevistados 22 mil consumidores durante 20 dias. A pesquisa foi concluída em agosto e envolveu 17 categorias de produtos.
Der acordo com Renato Meirelles, diretor do Data Popular, os consumidores foram interrogados, de forma aberta, sobre qual marca mais "conquistou seu coração", independentemente da categoria. Isso significa que o entrevistado poderia dar a resposta que viesse à mente.
54% dos consumidores desta Classe C, que está em vias de chegar a 60% da população brasileira, que cada vez mais compra pela web e nos últimos meses apresentou sintomas de endividamento, responderam que é a Nestlé (com 4,1%) a mais lembrada. Na sequência, apareceu a Samsung, com 3,9%, e Adidas e Nike juntas, com 3,7%.
 
Para Meirelles, o fato da grande parcela dos consumidores não terem uma marca de preferência aponta que muitas empresas têm errado em suas estratégias de marketing. "A preocupação é muito maior (...) nas lembranças do que em ser relevante para o consumidor. As empresas gastam milhões com as propagandas, mas não conseguem ter um manual de instrução que as pessoas entendam.
 
Cada vez mais, questões simples como a compreensão do perfil do público que se quer atingir, a escolha do canal correto de comunicação e a garantia de que a mensagem será clara, de fácil entendimento... tornam-se pontos fundamentais para que o investimento não torne-se gasto. Somos diariamente bombardeados por marcas e mensagens publicitárias, desde aquelas de boa qualidade e que grudam como chiclete na nossa mente, até as desagradáveis, inconvenientes , que fazem tudo menos nos conquistar. O assunto acaba por inevitavelmente lembrar-nos de que nem só de marketing tradicional vivem as marcas que buscam nossa atenção e preferência. Muito em voga está o tal Mkt de Relacionamento, saindo das massas e direcionando as estratégias num modelo one-to-one, trabalhando forte na recompra, na fidelização e na busca constante de aumentar o grau de satisfação do cliente. Utiliza-se de recursos menos midiáticos e mais próximos do dia a dia do consumidor.
 
Mas voltando a pesquisa da Classe C, vale o destaque para um comentário que pode parecer irônico e é a mais pura verdade. O diretor do Data Popular, responsável pela pesquisa, avalia que as marcas mais lembradas são coincidentemente aquelas que investem em qualidade . E por quê? Porque o consumidor da classe C não tem a possibilidade de errar na escolha. "Se ele comprar uma marca de arroz que gruda, vai ter que comer arroz grudento o mês todo", diz. Já a elite, por exemplo, se erra na escolha, tem a possibilidade de comprar o item de outra marca, ressalta.
De acordo com ele, a família da classe C usada nas pesquisas tem uma renda média de R$ 2,5 mil ao mês.
 
 
09
Set
2012
Viva e enterrada
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           Viva e enterrada
 
          A expressão, ao contrário do que possa parecer, não refere-se a titulo de filme de terror ou notícia aterrorizante de jornal sensacionalista. A frase foi dita espontaneamente por alguém que realmente sente-se assim: viva e enterrada. “Neste fim de mundo, neste buraco sem fim”, neste lugar que, acredite, você chamaria de paraíso. Parece contraditório, não é mesmo? Mas é real.
          No último final de semana o sol escaldante reluzia e convidava os acomodados a sair de casa. Qualquer programa seria melhor do que ficar curtindo um sofá e fingir que o dia não estava deslumbrante. Sem muitos rodeios, arrumamos a bolsa do bebê, pegamos a máquina fotográfica, alguns comes e bebes e em poucos minutos estávamos a postos, já no carro, com uma idéia na cabeça: visitar um lugar nunca antes visitado. Nada que fosse distante, afinal com bebê seria melhor estar em casa antes do anoitecer. De preferência, queríamos uma praia, o que não era difícil visto que a ilha contempla mais de 40 delas. A 30 quilômetros havia duas que nos interessavam. Pra lá nos bandeamos de um jeito descompromissado e sem expectativa, o que sempre torna a viagem melhor. Quando você não espera nada daquela aventura, ela tem tudo para de alguma forma surpreender.
Em meio a vilarejos povoados por pescadores, eis que a natureza exuberante se manifestava e tornava o simples, especial. Predominava o silêncio e a sonolência. O som do vento sul entrava em harmonia com os raros latidos dos cachorros soltos e o canto dos pássaros. Cheguei a ficar na dúvida se o comércio estava aberto, afinal não havia qualquer movimento ou olhar sobre as vitrines empoeiradas. Mas quem se importaria com isso? Era o encontro do rio com o mar e as ilhas irmãs que mais nos tiravam o fôlego. Éramos as únicas testemunhas a circular na areia, naquele momento, naquele lugar. Foi quando alguém nos chamou, atraindo nossa atenção e quebrando o silêncio tão pacificador.
        Uma senhora de meia idade sedenta por alguém para conversar. Foi logo esboçando um sorriso como que para garantir que teria nosso consentimento na prosa. Apresentou-se, ofereceu ajuda e acomodação. Era dona de uma das pousadas da Pinheira. Uma das mais lindas, constatamos. Privilegiadamente situada em frente ao mar. Rodeada por árvores, flores, pedras, desfrutando de uma vista espetacular. Não estávamos procurando por lugar para pernoitar. Os planos eram de retornar no final do dia. Mas a gentileza era tamanha que aceitamos conhecer a pousada e aproveitar para tirar belas lá do alto do morro.
           A caminhada íngreme foi beneficiada logo de chegada, quando avistamos as ilhas, a praia, o vilarejo, lá do alto. Os surfistas transformaram-se em meros pontinhos pretos no mar avantajado. E próximo a eles, baleias francas, visitando a costa para  dar a luz aos seus filhotes. Um visual que naquele momento já fazia valer o passeio.
           Mas a mulher insistia. Queria mesmo conversar, ou melhor, falar. Contou-nos da vida em Porto Alegre, dos filhos que pouco via, dos amigos que se foram, do inverno e do verão intensos na praia que hoje servia de sua morada. E ao comentarmos do quanto admirávamos a beleza do lugar e do quanto deveria ser fascinante morar num local tão próximo a natureza, tão tranqüilo e... ela prontamente nos interrompeu: - Vocês querem mesmo saber como é morar aqui? Sinto-me viva e enterrada. Esquecida pelo mundo. Quase inacessível.
           Não sabíamos o que responder. Ficamos perplexos. Seja pela espontaneidade daquela velha senhora ou pelo fato dela ser infeliz num lugar tão belo. Não entramos no mérito. Sorrimos como que demonstrando compaixão. Olhamos o relógio, anunciamos um compromisso e seguimos viagem. De alguma forma concordamos no olhar que aquela energia, aquela falta de vida não nos faria bem.
           O que faz alguém chegar neste nível de desilusão? Falta de gente? Perda de interesse pelas coisas? Mas não haveria livros nas prateleiras? Internet? Hobbies que se pudessem dedicar ao ar livre, em contato diário com a natureza? Difícil de entender. Afinal havia ali um negócio consolidado, uma alternativa de viver dignamente, privilegiadamente. Com altos e baixos, como toda cidade turística, é verdade.
        E pergunto: se o dono do negócio vive nesta vibração, o que esperar da pousada? Você se hospedaria lá? Sinceramente, não  mostrou-se nada convidativo depois do bate-papo inicial. E quantos prospects, assim como nós, deixam de optar pela pousada por algum motivo, nem sempre aparente. Apenas sente-se. Inusitado seria ser bem atendido num lugar baixo astral. Encontrar hospitalidade e serviço de primeira num restaurante, num salão de beleza, num hotel, onde o próprio dono não vibra, cansou ... seria inusitado. Esta falta de brilho no olho logo reflete-se na falta de clientes, nos baixos índices de satisfação dos poucos que se mantém.
          Há uma expressão que se chama “ atmosfera reinante”. Conceito oriental, prega que o ambiente pode facilitar ou criar barreiras. Pode ser inspirador e estimular bons fluidos, ou ser gerador de estresse e dificuldade de relacionamento. E qualquer semelhança com a realidade encontrada na pousada, não é mera coincidência.

           Já faz dias do ocorrido. Faz anos que a tal senhora encontra-se no alto do morro, em contato com o paraíso. Nunca mais retornamos naquele lugar. Nem tampouco sabemos se a pousada se mantém, se os hóspedes chegaram ou se o silêncio permanece. O fato é que me fez pensar. Quantos, assim como ela, vivem em constante sensação de morte antecipada? Isso mesmo. Vivos e enterrados, como diria a dona da pousada. E para tal, não se faz necessário morar num lugar distante, abandonar família ou os grandes centros urbanos. Morre antes quem abre mão de seus sonhos. Morre antes, quem perde o tesão  pela vida. Quem não vê mais graça num pôr do sol. Do mesmo modo, enterra-se vivo,  quem acha que já sabe tudo, não lê mais, não estuda mais, não amplia conhecimento. E junta-se também a estes, os infelizes de plantão, que reclamam e nada fazem para mudar a realidade, da sua cidade, da sua rua, do seu casamento. Vivem reféns da sua própria história de tristeza e insucesso, aceitando a condição de enterrados vivos, até que alguém os descubra ou a vida lhes

apresente motivo suficiente para reagir. Se houver tempo...

29
Agosto
2012
Comprar é uma viagem


COMPRAR É UMA VIAGEM
 
O que leva você a desejar um fogão novo? O que o impulsiona a trocar de carro? E a ter o décimo quinto par de sapato? Certamente motivos distintos, motivações diversas. O despertar do desejo de compra no consumidor pode ser gerado por diferentes fatores e influências. A moça “precisa” daquele vestido novo porque tem uma festa de formatura no final de semana e só ele é capaz de deixá-la deslumbrante.  A adolescente “precisa” do celular novo porque suas colegas todas exibem o último modelo e ela quer sentir-se parte do grupo, ter o que as outras têm. O carro ficou velho, obsoleto, só vem dando problemas. O vizinho comprou um fogão novo, sua esposa viu e não pára mais de falar no assunto. Seja o motivo que for, independente de haver necessidade real na compra ou se for por puro modismo ou descontrole, não entrarei em tal julgamento. Compra quem quer, quem pode e se  lhe faz feliz, que compre.
 O assunto que me recorre é justamente o prazer, a sensação de felicidade que o ato de comprar agrega. Especialistas falam em áreas do cérebro que são ativadas quando o consumidor se depara com tais produtos, vitrine ou um comercial de TV. Comer chocolate aciona a parte do cérebro responsável pelo prazer e por isso há tantos chocólatras no mundo. No caso dos fumantes, acreditem, ocorre algo inusitado. Pesquisas relatadas no livro “A lógica do consumo”, de Martin Lindstrom, provam que ao serem expostos a imagens degradantes, de pessoas doentes, o fumante, apesar de reagir verbalizando algo como “que nojo” ou “ que horror”, é também a região do cérebro responsável pela sensação de prazer que se ativa e faz ele desejar fumar ainda mais. Parece loucura, mas é neuromarketing e funciona muito mais eficazmente na busca de compreender os desejos do consumidor, do que a pesquisa tradicional, onde ao sermos questionados sobre gostar ou não de um determinado produto, podemos até dizer que “sim”, mas isso não significa que haverá o ato da compra, a preferência, a decisão por aquele produto em questão. É o risco que se corre ao confiar tão somente nas respostas espontâneas a uma pesquisa.

 

Tudo bem, isso tudo não significa que ao comprar, estejamos literalmente viajando, como sugere o titulo deste artigo. Mas refiro-me a ser uma viagem, no sentido de envolver muitas emoções. Incentiva nossa imaginação. Nos leva a pesquisar, planejar, coletar informações e opiniões, até a tomada de decisão. Como numa viagem que fazemos. E uma vez chegando no destino, usufruímos do prazer da chegada. Desvendamos os mistérios do lugar. Ao comprar um produto novo, o processo assemelha-se. Dia a dia, ao manusear o notebook novo, o celular, experienciamos novas sensações, descobrimos, sentimos prazer e satisfação.  Há todavia, uma diferença gritante em meio a algumas similaridades: Sempre voltamos melhores de uma viagem. Evoluímos, crescemos culturalmente e intelectualmente. É puro investimento. Coisa que nem a compra de dezenas de pares de sapato é capaz de provocar.

 
28
Agosto
2012
Bom senso é fundamental

Bom senso é fundamental

 

Atrair mais clientes, aumentar o ticket médio, garantir mais produtividade, bater as metas... expressões comuns ao varejo e à vida de vendedor. Pelo menos daquela grupo dos não acomodados, que buscam insessantemente criar diferenciais e encarar a dura rotina diária, que exige reinventar-se constantemente. Que a classe C cresceu vertiginosamente e o potencial de consumo do povo brasileiro aumentou, isso não é novidade. Assim como também não é novidade o fato de ter havido nos últimos meses, uma saturação de crédito, ou seja, um endividamento acima da média, travando literalmente o boom do consumo. Não chega a ser algo preocupante a ponto de nos compararmos com países europeus no auge de uma crise econômica. Mas o sinal amarelo acendeu. E com ele, alguns lojistas, como é de praxe, partiram para a ação. Promoções, vitrines reformuladas, programas de fidelidade, serviço além do convencional... vale tudo para garantir que a venda aconteça e que o consumidor não passe a utilizar a loja física como mero recurso para pesquisar e conferir os produtos, optando a posteriori, por comprar na web. Há que se ter paciência, insistência e criatividade.

E foi  neste quesito que uma tal loja do tipo   "tem de tudo " me chamou a atenção dias atrás. Como num sábado de manhã qualquer, onde aproveitamos para ir às compras e resolver aquilo que não foi possível durante a semana e nem o será no domingo,eis que levantamos predispostos a encarar o desafio. Filas, trânsito, muvuva. Tudo parece valer apena. Afinal é fim de semana e o figurino despojado, cabelo desarrumado,  não combinam com estresse e  irritação.

Já passava das 10h quando me dirigi a esta tal loja. A princípio era apenas para comprar um ferro elétrico. Mas sabe como é. A gente acaba sendo motivado a comprar a lâmpada, o tapetinho do banheiro que já mudou até de cor, copos novos para substituir os rachados. No fundo não precisamos de nada disso. Mas é a famosa sensação do   " já que". Já que estou aqui mesmo e não pretendo retornar tão cedo a esta loja, vou aproveitar e levar. Mas o assunto que me motiva a escrever não vai ao encontro dos utensílios domésticos que comprei,mas de uma estratégia equivocada da empresa, capaz de quase, quase me mandar embora antes do tempo.

Os vendedores foram certamente estimulados pelo gerente naquelas reuniões de preleção. Sabe como é, não é mesmo? Todos entoam um grito de guerra, prometem que vão dar o máximo de si naquele dia e combinam determinadas movimentos estratégicos para acelerar a venda de um determinado item, ou, para desovar o estoque de algo que está literalmente encalhado.  No caso, o sábado era dedicado a chaleira elétrica. Aquelas que a gente esquenta água rapidinho ao ligar na tomada. Baita produto! Super prático, mas a forma como eles optaram por incentivar a compra me pareceu, no mínimo, equivocada.

Como que na linha de frente de uma escola de samba, os vendedores posicionaram-se todos no começo de cada um dos inúmeros corredores. A cada cliente que entrava, eles abordavam: - Quer aproveitar? A chaleira está em promoção ! É só hoje, hein?  Você trocava de corredor por algum motivo e eis que de novo, outro vendedor o abordava com o mesmo bordão. Você sorria, agradecia e continuava tentando comprar o que precisava. Fiquei na loja uns 40 minutos. Fui abordada pelo menos 6 vezes. Ao final, já não sorria,nem agradecia mais. Fugia. Desviava dos vendedores inconvenientes, como quem foge de uma cigana que quer ler sua mão a todo o custo numa esquina ou de um ambulante nas praias do nordeste que não lhe permite relaxar e curtir seu banho de sol. Certamente, eu não fui a única a me sentir assim. A insistência daquele grupo enorme de gente munido de chaleira na mão importunou muito cliente.

O que levaria você a levar a tal chaleira, estando a mesma fora dos seus planos de compra num sábado de manhã? Quem sabe uma degustação de café, chá, feito na hora, com água aquecida na chaleira elétrica.  Ou ainda os atendentes do caixa sendo treinados para dizer que com mais x reais na parcela, você aproveita e leva esta chaleira elétrica linda e super moderna, enfim, não precisamos inventar a roda, apenas ter bom senso. Muitas lojas, muitos vendedores, perdem a medida quando exageram, insistem em demasia, travam o fluxo dos clientes no interior da loja. E isso não é exclusivo da loja de  "mil e uma utilidades". Uma volta no centro, no comércio local, e encontraremos mais exemplos de vendedores que ao invés de despertarem o desejo no cliente, empurram o produto goela abaixo. Deste modo fica fácil de compreender os porquês da migração de muita gente para o canal virtual. Conforto, comodidade, preço atrativo e garantia de não ter que se deparar com este tipo de situação. Não é o meu caso, pois sou do tipo que adora o deslocamento, a ida ao shopping, o programão de sábado, o look nas vitrines... Mas muita gente já se rendeu a esta nova realidade.

28
Agosto
2012
Em extinção
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Em extinção
Tal e qual o Mico Leão Dourado, a Ararinha Azul e o Pica Pau de Cara Amarela, a gentileza também está em extinção. E como os animais, a culpa é do homem. Matou, caçou, desmatou, prendeu, eliminou e as espécies foram se findando. A Tartaruga de Couro, por exemplo, é cada vez mais rara no litoral brasileiro. A gentileza também foi morrendo aos poucos. Caindo em desuso. Seja pela falta de tempo do dia a dia, pelo excesso de compromissos e preocupações do mundo contemporâneo, a verdade é que pouco se vê. Tornou-se peça rara, capaz de gerar surpresa em quem assiste ou é parte da ação gentil.
Idosos enfrentam motoristas revoltados, sempre com pressa, que não hesitam em acelerar o motor e não dar tempo hábil para que subam no transporte coletivo calmamente. Dentro do ônibus, a sorte é lançada. Certamente haverá alguém – não idoso e em perfeitas condições físicas – sentado no assento preferencial. Ele pode levantar e permitir que alguém debilitado ocupe-o. Ou não. Depende. De que? Da educação que teve em casa, do bom senso, de quanto ele aprendeu a respeitar o próximo. Não há garantias. Pode tratar-se de alguém do tipo “ tô nem aí”, “ví primeiro”, “tô mais cansado que você”, etc, etc.
Pedestres circulam pelas ruas num cenário que lembra um jogo de boliche. Corra que o carro, a moto... todos podem te pegar e Strike ! Foi você que errou em atravessar na faixa de segurança, estimando que o carro parasse. Foi você que não correu o suficiente quando o sinal mudou do verde para o vermelho enquanto estavas no meio da avenida.
Na padaria, no restaurante, na lan house, no supermercado, a chance de você deparar-se com alguém que não vai lhe dar bom dia, nem obrigado, não vai olhar nos seus olhos, vai fazer cara feia para sua falta de troco e esquecer de pedir desculpas pela longa fila do caixa que o fez aguardar por quase uma hora, é real e passível de acontecer a qualquer momento. Salve-se quem puder. E o pior? Acostuma. Você já nem sente mais falta de tanta gentileza e simpatia. Aprendeu a viver sem isso. Conforma-se acreditando que não dá tempo para tanta educação.
Dias atrás assisti a uma senhora de idade insultar a moça do caixa do supermercado, porque a mesma avisou em voz baixa e com discrição, que “o seu cartão não passou”. Expressões como burra, estúpida e mal preparada foram emitidas com total razão de ser. Em timbre alto e agressivo. Afinal, quem ela pensa que é.
Não estou dizendo que não seja um transtorno, um inconveniente ouvir esta frase, justamente sendo aquele, o cartão que você sabe que tem limite até a lua, que a chance de estar em débito é tão possível quanto o julgamento do Mensalão resultar em cadeia. Mas não importa. O fato é que não suportamos lidar com uma situação em que somos contrariados. Nos achamos melhor que os outros e não admitimos receber um “não”. E perante a situação, reagimos. Lutamos de punho fechado e munidos de razão, xingamos, desrespeitamos, testamos o quanto temos de poder. As compras já não importavam mais. O importante era perante a platéia atenta, provar que tinha dinheiro. Provar que a retardada da moça do caixa errou e você foi vitima de injustiça.
Alunos economizam gentileza com seus mestres, secretárias esquecem que pacientes são clientes, frentistas lavam o vidro freneticamente, sem perguntar se queremos. Há que se ganhar produtividade. Agilidade. Pressa. Taí uma inimiga declarada da gentileza: se andássemos uns passinhos menos ligeiro,  se dirigíssemos numa velocidade menos acelerada... tudo isso agregado aos exemplos que devem vir de casa, certamente um obrigada, um boa tarde, um com licença, não pareceriam estar em extinção. Seriam tão comuns e corriqueiros como enviar um torpedo, acessar sua página no facebook ou atender celular em local inapropriado. Pra isso, sempre temos tempo.
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