Já faz dias do ocorrido. Faz anos que a tal senhora encontra-se no alto do morro, em contato com o paraíso. Nunca mais retornamos naquele lugar. Nem tampouco sabemos se a pousada se mantém, se os hóspedes chegaram ou se o silêncio permanece. O fato é que me fez pensar. Quantos, assim como ela, vivem em constante sensação de morte antecipada? Isso mesmo. Vivos e enterrados, como diria a dona da pousada. E para tal, não se faz necessário morar num lugar distante, abandonar família ou os grandes centros urbanos. Morre antes quem abre mão de seus sonhos. Morre antes, quem perde o tesão pela vida. Quem não vê mais graça num pôr do sol. Do mesmo modo, enterra-se vivo, quem acha que já sabe tudo, não lê mais, não estuda mais, não amplia conhecimento. E junta-se também a estes, os infelizes de plantão, que reclamam e nada fazem para mudar a realidade, da sua cidade, da sua rua, do seu casamento. Vivem reféns da sua própria história de tristeza e insucesso, aceitando a condição de enterrados vivos, até que alguém os descubra ou a vida lhes
apresente motivo suficiente para reagir. Se houver tempo...
Tudo bem, isso tudo não significa que ao comprar, estejamos literalmente viajando, como sugere o titulo deste artigo. Mas refiro-me a ser uma viagem, no sentido de envolver muitas emoções. Incentiva nossa imaginação. Nos leva a pesquisar, planejar, coletar informações e opiniões, até a tomada de decisão. Como numa viagem que fazemos. E uma vez chegando no destino, usufruímos do prazer da chegada. Desvendamos os mistérios do lugar. Ao comprar um produto novo, o processo assemelha-se. Dia a dia, ao manusear o notebook novo, o celular, experienciamos novas sensações, descobrimos, sentimos prazer e satisfação. Há todavia, uma diferença gritante em meio a algumas similaridades: Sempre voltamos melhores de uma viagem. Evoluímos, crescemos culturalmente e intelectualmente. É puro investimento. Coisa que nem a compra de dezenas de pares de sapato é capaz de provocar.
Bom senso é fundamental
Atrair mais clientes, aumentar o ticket médio, garantir mais produtividade, bater as metas... expressões comuns ao varejo e à vida de vendedor. Pelo menos daquela grupo dos não acomodados, que buscam insessantemente criar diferenciais e encarar a dura rotina diária, que exige reinventar-se constantemente. Que a classe C cresceu vertiginosamente e o potencial de consumo do povo brasileiro aumentou, isso não é novidade. Assim como também não é novidade o fato de ter havido nos últimos meses, uma saturação de crédito, ou seja, um endividamento acima da média, travando literalmente o boom do consumo. Não chega a ser algo preocupante a ponto de nos compararmos com países europeus no auge de uma crise econômica. Mas o sinal amarelo acendeu. E com ele, alguns lojistas, como é de praxe, partiram para a ação. Promoções, vitrines reformuladas, programas de fidelidade, serviço além do convencional... vale tudo para garantir que a venda aconteça e que o consumidor não passe a utilizar a loja física como mero recurso para pesquisar e conferir os produtos, optando a posteriori, por comprar na web. Há que se ter paciência, insistência e criatividade.
E foi neste quesito que uma tal loja do tipo "tem de tudo " me chamou a atenção dias atrás. Como num sábado de manhã qualquer, onde aproveitamos para ir às compras e resolver aquilo que não foi possível durante a semana e nem o será no domingo,eis que levantamos predispostos a encarar o desafio. Filas, trânsito, muvuva. Tudo parece valer apena. Afinal é fim de semana e o figurino despojado, cabelo desarrumado, não combinam com estresse e irritação.
Já passava das 10h quando me dirigi a esta tal loja. A princípio era apenas para comprar um ferro elétrico. Mas sabe como é. A gente acaba sendo motivado a comprar a lâmpada, o tapetinho do banheiro que já mudou até de cor, copos novos para substituir os rachados. No fundo não precisamos de nada disso. Mas é a famosa sensação do " já que". Já que estou aqui mesmo e não pretendo retornar tão cedo a esta loja, vou aproveitar e levar. Mas o assunto que me motiva a escrever não vai ao encontro dos utensílios domésticos que comprei,mas de uma estratégia equivocada da empresa, capaz de quase, quase me mandar embora antes do tempo.
Os vendedores foram certamente estimulados pelo gerente naquelas reuniões de preleção. Sabe como é, não é mesmo? Todos entoam um grito de guerra, prometem que vão dar o máximo de si naquele dia e combinam determinadas movimentos estratégicos para acelerar a venda de um determinado item, ou, para desovar o estoque de algo que está literalmente encalhado. No caso, o sábado era dedicado a chaleira elétrica. Aquelas que a gente esquenta água rapidinho ao ligar na tomada. Baita produto! Super prático, mas a forma como eles optaram por incentivar a compra me pareceu, no mínimo, equivocada.
Como que na linha de frente de uma escola de samba, os vendedores posicionaram-se todos no começo de cada um dos inúmeros corredores. A cada cliente que entrava, eles abordavam: - Quer aproveitar? A chaleira está em promoção ! É só hoje, hein? Você trocava de corredor por algum motivo e eis que de novo, outro vendedor o abordava com o mesmo bordão. Você sorria, agradecia e continuava tentando comprar o que precisava. Fiquei na loja uns 40 minutos. Fui abordada pelo menos 6 vezes. Ao final, já não sorria,nem agradecia mais. Fugia. Desviava dos vendedores inconvenientes, como quem foge de uma cigana que quer ler sua mão a todo o custo numa esquina ou de um ambulante nas praias do nordeste que não lhe permite relaxar e curtir seu banho de sol. Certamente, eu não fui a única a me sentir assim. A insistência daquele grupo enorme de gente munido de chaleira na mão importunou muito cliente.
O que levaria você a levar a tal chaleira, estando a mesma fora dos seus planos de compra num sábado de manhã? Quem sabe uma degustação de café, chá, feito na hora, com água aquecida na chaleira elétrica. Ou ainda os atendentes do caixa sendo treinados para dizer que com mais x reais na parcela, você aproveita e leva esta chaleira elétrica linda e super moderna, enfim, não precisamos inventar a roda, apenas ter bom senso. Muitas lojas, muitos vendedores, perdem a medida quando exageram, insistem em demasia, travam o fluxo dos clientes no interior da loja. E isso não é exclusivo da loja de "mil e uma utilidades". Uma volta no centro, no comércio local, e encontraremos mais exemplos de vendedores que ao invés de despertarem o desejo no cliente, empurram o produto goela abaixo. Deste modo fica fácil de compreender os porquês da migração de muita gente para o canal virtual. Conforto, comodidade, preço atrativo e garantia de não ter que se deparar com este tipo de situação. Não é o meu caso, pois sou do tipo que adora o deslocamento, a ida ao shopping, o programão de sábado, o look nas vitrines... Mas muita gente já se rendeu a esta nova realidade.